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Os tomadores de decisão da cadeia de suprimentos do mundo todo estão enfrentando hoje uma tempestade perfeita de desafios: não apenas as necessidades do mercado estão mudando, mas o ambiente mais amplo em que operam está sendo afetado pela completa interrupção causada pelo Covid-19. Quem se adapta melhor ao cenário de crise, passando pela Transformação Digital com menos “fricção”, acaba entendendo e protegendo melhor sua cadeia de suprimentos, e assim, tende a ganhar mercado. A mitigação desses efeitos e riscos hoje é urgente e continuará a ser no futuro. Diante disso, a Transformação Digital será vital para o alcance da flexibilidade e produtividade que o Supply Chain vai precisar. No entanto, apesar da cobertura significativa do tópico, as cadeias de suprimentos ainda estão reticentes em embarcar nele. Este artigo começa examinando o motivo e o que pode ser feito para superar as causas dessa hesitação. Com base nisso, é analisado como fazer da Transformação Digital uma mudança sustentável nas cadeias de suprimentos.

Os líderes da cadeia de suprimentos há muito enfrentam um ambiente complexo e multifacetado, equilibrando as demandas com o fornecimento para garantir que a coisa certa chegue ao lugar certo, na hora e nas condições certas. Agora, muitos líderes estão enfrentando pressões externas sem precedentes, dificultando ainda mais seus trabalhos. As muitas ações tomadas pelos governos em todo o mundo para lidar com a Covid-19 tiveram o efeito imediato de suspender o fornecimento em muitos setores da indústria, além de reduzir significativamente a demanda – ou até mesmo zerá-la. No médio prazo, ainda há incerteza considerável sobre efeitos político-econômicos em curso: no caso do Brasil há possibilidade de crescente crise política, os EUA estão há alguns meses em guerra comercial com a China e ainda não se tem clareza de como o Reino Unido negociará e trabalhará com a comunidade internacional pós-Brexit, apenas para citar alguns dos principais exemplos.
Essas muitas questões exigem diferentes enfoques:

  • No curto prazo, é preciso direcionar esforços para o gerenciamento do fluxo de caixa e na preparação para o aumento da demanda à medida que a situação do Covid-19 melhorar.
  • A médio prazo, será necessário ter agilidade e flexibilidade para responder às possíveis adversidades do contexto macroeconômico

Além desse cenário macroeconômico, as características da demanda continuam evoluindo

Em resposta a essas pressões e riscos, as cadeias de suprimentos frequentemente recorrem às ferramentas mais recentes, introduzindo soluções de planejamento de recursos empresariais (ERP), sistemas de gerenciamento de armazenamento e transporte (WMS e TMS), planejamento de vendas e operações (S&OP) e soluções de gerenciamento de riscos da cadeia de suprimentos. As operações são cada vez mais digitais por natureza, gerando volumes de dados sem precedentes, mas isso não é consistente em toda parte da cadeia de suprimentos: algumas empresas e/ou funções dentro delas ainda contam com papel e ferramentas básicas de TI (planilhas do Excel, por exemplo), enquanto outras possuem diferentes partes do negócio em diferentes estágios de maturidade.

Em paralelo, a complexidade de processos e ferramentas está se acelerando, com novas soluções para problemas específicos emergindo rapidamente e sendo adicionadas ao portfólio de sistemas. Os desenvolvimentos tecnológicos também estão diminuindo as barreiras à entrada, e as novas empresas estão disruptando a natureza da concorrência, esquivando-se dos modelos de negócios do passado.

Para que as empresas e suas cadeias de suprimentos possam sobreviver e ter sucesso, elas precisam se adaptar e evoluir: “business as usual – fazendo as coisas da mesma maneira de sempre – simplesmente não será suficiente e inevitavelmente resultará em receitas mais baixas, custos mais altos e, mais cedo ou mais tarde, portas fechadas. São necessárias novas maneiras de trabalhar para ter a aptidão e a capacidade de resposta corretas, e o cerne disso é a Transformação Digital.


Gostaria de se aprofundar no conceito de Transformação Digital?
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Estruturando um Data Lake para transformação digital


 

A realidade da Transformação Digital

O tema da Transformação Digital permeia praticamente toda a literatura profissional atual e, no entanto, ainda é pouco compreendida por muitos. O uso excessivo do termo levou à confusão, com muitos pensando que se refere simplesmente ao uso de ferramentas de TI ou à conversão de documentação em papel para o formato digital. Embora ambos sejam pequenos elementos dessa transformação, eles não estão corretos:

A Transformação Digital é uma mudança fundamental na maneira como as empresas agregam valor – incluindo pessoas, processos, ferramentas, cultura e estratégia – com a moderna tecnologia da informação no centro da disrupção.

Quando entregues de maneira adequada e sustentável, os benefícios da Transformação Digital são exatamente o que todas as empresas de sucesso buscam:

  • Níveis de serviço mais altos
  • Maior produtividade
  • Melhor flexibilidade
  • Moral melhorada
  • Custos mais baixos

 

Se a Transformação Digital é tão boa, por que tão poucas cadeias de suprimentos estão embarcando nela?

Uma pesquisa recente do Supply Chain Executive descobriu que dois terços das cadeias de suprimentos das empresas ainda não começaram sua jornada e apenas sete por cento já estão colhendo os benefícios [1].

A mesma pesquisa constatou que os dois principais motivos para não começar foram “medo de mudar” e “aversão ao risco”. Dada a escala de mudança que a Transformação Digital envolve, isso não é uma surpresa – esses mesmos sentimentos têm sido uma ressalva em muitos de nossos clientes sempre que enfrentam mudanças significativas.

O desafio vem em três partes:

  1. Saber por onde começar
  2. Como superar o medo da mudança
  3. Como manter o ímpeto para atingir um ponto final que pode levar anos

 

Colocando os primeiros tijolos

Com a disrupção monumental vindo do Covid-19 e outras pressões macroeconômicas aumentando a lista de desafios que os tomadores de decisão de Supply Chain já enfrentam, saber por onde começar é uma grande questão. A gama de tecnologias inovadoras disponíveis hoje é impressionante e confusa: as empresas devem investir em inteligência artificial (AI) ou na Internet das Coisas (IoT)? Deveriam abraçar o blockchain? Cada tecnologia pode ser aplicada para resolver problemas da cadeia de suprimentos e aprimorar a utilização dos recursos. Se aplicadas da maneira certa e no momento certo, definitivamente podem entregar tais benefícios. No entanto, existem dois desenvolvimentos que não apenas resolvem os problemas mais estratégicos, como aumento dos níveis de serviço e redução de custos, mas que comprovadamente os entregam rapidamente às cadeias de suprimentos: automação de processos robóticos (RPA) e impressão 3D.

 

Automação Robótica de Processos: melhorando a produtividade rapidamente

Desde seu surgimento nas principais operações, oito anos atrás, o RPA rapidamente se tornou uma inovação técnica rara: uma que atende, se não excede, às expectativas. No fundo, o RPA é um conjunto de ferramentas que automatiza processos em sistemas de TI, replicando as ações que um operador humano faria. Idealmente, o RPA é particularmente aplicável a processos repetitivos, estáveis, com poucos desvios e que, em geral, não são particularmente agregadores de valor.

Considere os processos da cadeia de suprimentos nas áreas de compras, logística e capacitação, tais como purchase-to-pay, que possuem essas características. Normalmente eles fazem parte da carga de trabalho de uma pessoa, embora ocasionalmente sejam tudo o que essa pessoa faz. Em vez de contratar uma pessoa em período integral ou distrair o indivíduo de tarefas mais produtivas, essas atividades são automatizadas pelo RPA, retirando o robô do ser humano.

Por exemplo, um dos clientes da Visagio – uma empresa líder em petróleo e gás – descobriu que o RPA poderia reduzir a carga dos processos de due diligence de seus fornecedores em 27%, com uma melhoria significativa na precisão e auditabilidade da qualificação de fornecedores. Trabalhando com a equipe de implementação da Visagio, outro cliente do setor de energia reduziu o tempo para registrar novos materiais em seu ERP em 95%, economizando 2.280 horas-homem por ano só nesse processo.

 

Impressão 3D: uma nova abordagem para o gerenciamento de peças de reposição

Apesar de ter mais de 35 anos, a impressão 3D – também conhecida como manufatura aditiva – é usada há muito tempo na prototipagem rápida, ajudando nas fases de design do desenvolvimento do produto. Os avanços na tecnologia e no software associado significam que agora ele está sendo usado na fabricação de peças para uso final, e os eventos recentes no combate ao Covid-19 reforçaram isso. A impressão 3D refere-se a um conjunto de tecnologias que têm um aspecto semelhante ao modo como funcionam: em vez de remover materiais de uma quantidade inicial, como processos de fresagem, torneamento e retificação, a impressão 3D produz itens adicionando matéria-prima camada por camada. As vantagens disso incluem:

  • Capacidade de produzir itens com lead-times significativamente menores
  • Capacidade de produzir itens com geometrias complexas, bem como simplificar a produção de itens em peças únicas em vez de utilizar uma montagem de componentes
  • Capacidade de produzir itens em “lotes unitários”, eliminando a necessidade de quantidades mínimas de pedidos que podem afetar as compras e a logística
  • Permite produção personalizada em série, com várias versões de um design sendo feitas, cada uma com uma geometria diferente
  • Redução dos custos de ponta a ponta da cadeia, além de redução do desperdício nas peças de fabricação e logística da cadeia de suprimentos
  • Menor necessidade de pessoal quando comparado aos processos de fabricação tradicionais

Já os setores de indústrias como aeroespacial, defesa, automotivo, ferroviário, médico, odontológico e joalheria, estão usando a impressão 3D para produzir peças para novos produtos. A aeronave mais recente da Airbus contém cerca de 1.000 peças impressas em 3D, por exemplo, e a Rolls-Royce está usando a tecnologia para permitir a personalização do interior de seus carros. Várias empresas e consórcios estão empregando impressão 3D para agilizar o desenvolvimento de produtos e fabricar componentes para os ventiladores e outros equipamentos médicos que estão sendo extremamente exigidos na crise do Covid-19. Mais recentemente, empresas perceberam que a impressão 3D é uma solução muito útil no suporte pós-venda também.

Devido à necessidade de ter peças sobressalentes de MRO (manutenção, reparo, operação), disponíveis quando necessário, as cadeias de suprimentos geralmente se encontram com grandes estoques de peças em movimento lento. Isso bloqueia o capital de giro e incorre em custos de armazenagem e descarte. Se as empresas possuem ou usam ativos de longa duração, como nas indústrias extrativas ou nos setores aeroespacial, de defesa e manufatura, existe um risco significativo de falta de suprimento ou atrasos para reabastecimento, pois os fornecedores terão mudado de linha de produção ou saído do mercado. Isso aumenta os prazos de reposição dos estoques, potencialmente interrompendo as operações por períodos prolongados, com consequente perda de receita. A impressão 3D pode solucionar esse dilema, oferecendo fabricação sob demanda, reduzindo os prazos de entrega e o custo end-to-end de MRO e outras peças de reposição.

Todos os dias são vistos novos exemplos de empresas que usam impressão 3D em seus mercados de reposição e gerenciamento de peças sobressalentes de MRO. A Deutsche Bahn, por exemplo, já a utiliza para produzir centenas de SKUs, reduzindo os prazos de entrega e, portanto, o tempo de reparo de trens e carruagens, voltando a funcionar mais rapidamente. A Chiltern Railways encontrou resultados semelhantes no Reino Unido.


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O próximo passo no gerenciamento de peças de reposição: impressão 3D


Domando a incerteza e mantendo o ímpeto

A Visagio há muito tempo defende uma abordagem de engenharia para lidar com a incerteza e impulsionar a implementação, o que é igualmente aplicável à Transformação Digital. A vantagem imediata desse método é que ele pode ser executado em etapas menores, produzindo resultados – e lições – ao longo do caminho que servem para obter o buy-in necessário para conduzir o programa a sua conclusão.

A abordagem envolve cinco etapas:

Defina os fatores chave para alcançar o sucesso do cliente e como a empresa os entrega. Identifique as ameaças e os problemas que dificultam ou dificultarão o alcance das metas, interagindo com quem dirige, gerencia e executa as tarefas e atividades nos negócios.

 

Comece pequeno, implementando novas abordagens de maneira limitada e controlada. Envolva estreitamente as equipes que usarão as novas maneiras de trabalhar para aprender com elas – se forem bem-sucedidas, serão aliadas em convencer a organização em geral a mudar.

 

Use as lições do estágio anterior para expandir esses pilotos e definir um roteiro para uma implementação expandida e sustentável das novas maneiras de trabalhar.

 

Desenhe os novos processos e novas estruturas para entregá-los. Treine as equipes e os indivíduos que se adaptarão a eles.

 

Aprimore as equipes que estão executando as novas abordagens com pessoas informadas, treinando-as e garantindo que as novas culturas e formas de trabalho sejam realmente incorporadas.

 

Aumentando a produtividade

Ambas as inovações têm três coisas em comum atraentes para os tomadores de decisão e planejadores da cadeia de suprimentos:

  1. Redução de riscos para a cadeia de suprimentos
  2. Redução da necessidade de pessoas à medida que as operações flutuam
  3. Aumentar a flexibilidade e agilidade para lidar com as condições variáveis a vir

 

A Transformação Digital é agora uma consideração necessária para os gerentes de Supply Chain, particularmente no ambiente atual. Ao colher esses benefícios, as cadeias de suprimentos estarão melhor posicionadas para navegar pelas turbulências à frente. O ritmo da mudança está mais rápido do que nunca, e não se adaptar à nova realidade será uma grande ameaça à viabilidade dos negócios. Para sobreviver, todos os tomadores de decisão da cadeia de suprimentos precisam responder à pergunta “Como entro na Transformação Digital?”. A resposta deve incluir a adoção de uma abordagem de engenharia, a adoção da mentalidade correta e a utilização dos conhecimentos informados para guiá-los ao longo da jornada.

 

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Fontes externas

[1] Supply Chain Executive, “Digital Transformation in Supply Chain—On Pace or at Risk?”, 19 Dezembro 2019, https://www.sdcexec.com/software-technology/article/21095519/digital-transformation-in-supply-chainon-pace-or-at-risk

 

Sobre o autor

Len Pannett é sócio-gestor do escritório da Visagio no Reino Unido. Seu foco é ajudar as organizações com seus desafios em Supply Chain e Transformação Digital. Palestrante e autor internacional destacado sobre esses tópicos (incluindo seu livro Supercharg3D: How 3D Printing Will Drive Your Supply Chain), Len é presidente do Conselho de Profissionais de Gerenciamento da Cadeia de Suprimentos (CSCMP) no Reino Unido e membro do Conselho Europeu da CSCMP na Europa.