Atualizado em 15/11/2018

Que tal levar cinco minutos no deslocamento entre a sua casa e o trabalho? Nada mal, não é? Uma pena que essa não costuma ser a realidade de milhões de pessoas que habitam as grandes metrópoles ao redor do mundo. Neste contexto, ter um carro próprio ou ser bem abastecido pelas malhas viárias do transporte público já não têm mais ajudado na redução de tempo gasto em transporte, dado os elevados níveis de congestionamentos das grandes cidades.

A partir de então, percebe-se o aumento de adeptos ao ciclismo como meio de transporte. Em São Paulo, por exemplo, o volume de ciclistas tem aumentado expressivamente, superando 200% entre 2014 e 2015 em 14 trechos de ciclovias monitorados pela Companhia de Engenharia do Tráfego (CET). Acompanhando esse movimento e focados em viagens de curta distância, projetos como BikeRio e BikeSampa tiveram um aumento considerável no volume de estações e bikes. No Rio de Janeiro, as estações mais que quadruplicaram e desde 2012, o número de estações em São Paulo cresceu de 10 para 260.

Infelizmente, apesar dos benefícios e do crescimento do número de adeptos, os ciclistas ainda enfrentam grandes dificuldades. Segundo dados da Pesquisa Perfil do Ciclista (Transporte Ativo, 2018), a falta de segurança no trânsito e infraestrutura são os principais problemas enfrentados no Brasil. Assalto, atropelamento, quedas, buracos, pista estreitas, muitos são os riscos que os ciclistas estão expostos diariamente.

Para minimizar esses impactos, campanhas de incentivo e investimento em infraestrutura surgem em grande parte do país. Em apenas três anos, o Brasil mais que dobrou a malha cicloviária das capitais e as principais cidades ainda planejam continuar a expansão, como exemplo Belo Horizonte, em que o seu Plano de Mobilidade anuncia a projeção de mais de 400 km de ciclovia até 2020.

Os resultados dessas ações impactam, diretamente, na maior quantidade de ciclistas. A Abraciclo, por exemplo, já prevê o aumento de 9% da demanda de bikes em 2018. Esta mudança de hábitos dos brasileiros, mesmo que gradual, traz benefícios não só individual, mas também para a sociedade em quatro aspectos principais: ambiental, econômico, rapidez / produtividade e saúde.

O meio ambiente agradece

Um dos maiores e mais comuns benefícios do uso de bicicletas como meio de transporte é a redução da emissão de CO2 no meio ambiente. Segundo pesquisa conduzida pela CEBRAP (2018), a substituição de veículos por bicicletas em trechos pedaláveis representa uma redução potencial de 8% das emissões de ônibus e 10% das emissões de automóveis.

Colocar como uma observação com letra menor em algum lugar: São consideradas viagens pedaláveis aquelas de até 8 km realizadas entre 6 h e 20 h por pessoas com até 50 anos. E viagens facilmente pedaláveis são aquelas de até 5 km realizadas entre 6 h e 20 h por pessoas com até 50 anos. Na amostra analisada pela pesquisa, 31% dos percursos de ônibus e 43% do percurso de automóveis são pedaláveis ou facilmente pedaláveis.

Se considerarmos os outros poluentes emitidos pela combustão de gasolina e diesel, mesmo que para transporte em curtos percursos, o benefício do uso de bicicletas é ainda mais potencializado.

É mais econômico ter uma bike:

Um dos principais itens que compõem o ranking dos gastos da população brasileira é o custo com deslocamento. Em São Paulo, cerca de 17% da renda de uma pessoa que tem o hábito de utilizar transporte coletivo está comprometida com as despesas referentes ao seu deslocamento (CEBRAP, 2018). A situação se agrava, passando para 20% quando é analisado o perfil de pessoas que usam mais transporte motorizado individual do que coletivo.

Ainda segundo o mesmo estudo, considerando o uso de bicicleta para distâncias pedaláveis, a economia mensal pode representar até R$ 138 comparado ao transporte coletivo e R$ 451 comparado ao transporte individual. A princípio, o ganho parece pequeno, mas representativo para as classes C, D e E que, segundo uma pesquisa realizada pelo Bradesco em 2017, representam 90% da população (Bôas, 2017).

É mais rápido e produtivo ter uma bike:

Rapidez e praticidade são os principais motivadores para começar a utilizar a bicicleta como meio de transporte urbano. Essa premissa é confirmada pela pesquisa do perfil do ciclista brasileiro (Transporte Ativo, 2018) que afirma: 38,4% deles buscam rapidez e praticidade, seguido por 22% que buscam redução de custo.

Essa procura por rapidez pode ser entendida quando observamos que 11% do tempo de viagem dos automóveis em São Paulo são perdidos em congestionamentos (CET, 2016). Substituindo-se os carros por bicicletas em viagens de até 8km,, é possível economizar até 9 min/pessoa. E quando a substituição é referente a um transporte público, o tempo economizado pode ser de até 19 min/pessoa (CEBRAP, 2018).

Assim como no Brasil, uma pesquisa realizada pela Federação Europeia de Ciclistas também destaca a importância da qualidade do tempo gasto, indicando que eles obtêm uma maior utilidade do tempo, se comparado aos condutores de automóveis (ECF, 2016).

Entretanto, a análise do benefício de rapidez, considerando apenas a abrangência individual, limita os potenciais ganhos de optar pelas bikes. Nesse sentido, é importante também ressaltar que a priorização do uso de bicicletas traz benefícios de maior rapidez aos demais motoristas à medida que reduz a quantidade de veículos. Além disso, também beneficia a economia como um todo. Estudos ressaltam que passar menos tempo no trânsito e em deslocamentos aumenta a produtividade e, consequentemente, o PIB (Haddad & Vieira, 2015).

Com base no artigo Mobilidade, Acessibilidade e Produtividade: Nota sobre a valoração econômica do tempo em viagem na região metropolitana de São Paulo, o estudo de impacto social da bicicleta em São Paulo estima que, se elas fossem utilizadas para trechos de até 8 km, ocorreria uma redução de três minutos para os demais motoristas. Isso representa um ganho de R$ 0, a mais no PIB por dia por pessoa, o que representaria em um âmbito municipal um PIB de R$ MM.


Redução de gastos com saúde

Dentre outros benefícios, o uso de bicicletas como meio de locomoção diária também traz impactos na área da saúde. Segundo a pesquisa CEBRAP (2018) , que avaliou o impacto social e econômico do uso da bicicleta, é possível comparar benefícios sociais e econômicos na saúde pública à potencial diminuição de ocorrência de alguns tipos de doenças causadas por conta da inatividade física.

Como forma de analisarmos esses resultados, trouxemos a consolidação dos resultados de perfil de inatividade física, benefícios sociais e impactos econômicos estimados.

Perfil Paulistano

O estudo realizado fez uso do questionário IPAQ, que determina a seguinte classificação de perfil de atividade física:

  • Regularmente ativos: aqueles que realizam atividades moderadas por pelo menos 5 dias na semana ou que se exercitam vigorosamente por pelo menos 20 min/dia em 3 dias na semana
  • Irregularmente ativos: aqueles que realizam atividades físicas (vigorosas ou moderadas), mas abaixo do estipulado como regularmente ativo
  • Inativos: aqueles que não realizam atividades físicas

A partir desses conceitos, a pesquisa apontou que a proporção de regularmente ativos é quase 3 vezes maior nos ciclistas do que na população de um modo geral. Quando avaliamos o perfil inativo, os ciclistas também se sobressaem, como era de se esperar, eles chegam a apresentar uma proporção de inativos 6 vezes menor quando comparados aos paulistanos em geral.

Benefícios Sociais para a Saúde

[Fontes] Segundo estudos que relacionam os efeitos da inatividade física à carga de doenças crônicas não transmissíveis, a inatividade causa, por exemplo, 6% da carga de doenças coronária, 7% para diabetes II e 10% para câncer de mama.

Além disso, a redução de 10% a 25% da inatividade poderia evitar 500 mil a 1,3 milhões de mortes. Dados como esse permitiram a elaboração da tabela de fatores de riscos, também apresentada no estudo da CEBRAP (2018), a qual relaciona os perfis de atividade física e os diferentes tipos de problemas associados em termos de incidência:

Com base nessa tabela, tomando como exemplo doenças cardíacas, é possível concluir que uma mudança de perfil de inativo para regularmente ativo representaria uma redução de 50,0% na taxa de ocorrência, assim como a mudança de perfil irregularmente ativo para regularmente ativo traria uma queda de 28,6% na incidência.

Benefícios Econômicos para a Saúde

Pelos dados disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de São Paulo e pelos fatores de riscos calculados, estima-se que a incorporação do perfil de atividades físicas dos ciclistas pela população da cidade de São Paulo, por exemplo, resultaria em uma economia de cerca de R$ 34 milhões por ano com internações relativas às doenças no aparelho circulatório e diabetes, o que representa 13% de economia quando comparamos com o valor declarado de gastos do SUS com esse tipo de doença em 2016.

Análises como essas são regularmente feitas em países europeus, onde o olhar sobre o impacto social e econômico do uso de bicicletas na mobilidade urbana já vem sendo acompanhado há mais tempo. No estudo feito pela Federação Europeia de Ciclistas (ECF, 2016), por exemplo, os savings (ou avoidances) na saúde, totalizam 97 bilhões de euros quando consideradas apenas evidências concretas. Mesmo evitando uma comparação entre São Paulo e União Europeia, o potencial de economia na saúde obtido pela capital paulista, pode ser, na prática, ainda maior se considerarmos a mesma riqueza de análises feitas no bloco europeu.

Conclusão

O aparente boom das bicicletas na vida dos paulistanos e dos habitantes das grandes cidades tem fortes argumentos que justificam os investimentos que vêm sendo feitos até aqui. Os estudos realizados no contexto da cidade de São Paulo, reunidos nesse insight, revelam que investir nesse modal pode resultar em mais do que uma mudança de hábitos ou de estilo de vida, trazendo ganhos econômicos. Ainda assim, tais ganhos ainda são pouco concretos para a realidade brasileira, mas podem ser considerados como um embrião de um bom investimento se feito em associação com uma boa gestão pública.

Há um potencial ainda a ser avaliado tanto para São Paulo quanto para o Brasil. As análises feitas pelas pesquisas brasileiras realizadas até o momento são incipientes, carentes de experimentação. A crescente preocupação com o meio ambiente, por outro lado, pode ser o impulsionador responsável por acelerar esse processo de transformação da mobilidade urbana no Brasil.

Por fim, resta ainda a transformação cultural. Além das condições favoráveis, é necessário passar também por um processo educacional. Amsterdam, cidade mundialmente conhecida pelas bikes, nem sempre teve essa fama: contou com políticas de incentivo somadas às políticas de proibição do uso de carro (Movimento Conviva, s.d.). Felizmente, parece que o ditado era verdadeiro para fazer da capital holandesa também a capital das bikes: quem aprende a andar de bicicleta, nunca mais esquece.

 

Referências Externas

[1] Barbosa, V. (2017). Carros representam 72,6% da emissão de gases efeito estufa em SP. Fonte: Exame: https://exame.abril.com.br/brasil/carros-representam-726-da-emissao-de-gases-efeito-estufa-em-sp/

[2] Bôas, B. V. (2017). Estudos apontam que até 900 mil pessoas deixaram classes A e B. Fonte: Valor Econômico: https://www.valor.com.br/brasil/5515501/estudos-apontam-que-ate-900-mil-pessoas-deixaram-classes-e-b

[3] CEBRAP. (2018). Impacto Social do Uso da Bicicleta em São Paulo. Fonte: http://cebrap.org.br/wp-content/uploads/2018/05/Impacto-Social-Uso-Bicicleta-SP.pdf

[4] CET, C. d. (2016). Mobilidade no Sistema Viário Principal. Fonte: CETSP: http://www.cetsp.com.br/media/499255/2015.pdf

[5] ECF. (2016). The EU Cycling Economy. Fonte: ECF: https://ecf.com/sites/ecf.com/files/FINAL%20THE%20EU%20CYCLING%20ECONOMY_low%20res.pdf

[6] Haddad, E. A., & Vieira, R. S. (2015). Mobilidade, Acessibilidade e Produtividade: Nota sobre a valoração econômica do tempo em viagem na região metropolitana de São Paulo. Revista de Economia Contemporânea.


Sobre os autores

Caroline Silva é consultora da Visagio, especialista em projetos de dimensionamento e reestruturação organizacional, bem como, gestão interina. Trabalhou em indústria de bebidas, serviços de meio de pagamentos, varejo e serviços financeiros.

Marcel Luna é consultor da Visagio, especialista em projetos com foco em engenharia de processos e análise de dados, tendo atuado nos setores de varejo, bancário e indústria.

Sergio Barreto é consultor da Visagio, especialista em projetos com foco em engenharia de processos e análise de dados, tendo atuado nos setores de varejo, mobilidade e incorporação.