Ter um propósito de contribuição para a sociedade. Tratar os stakeholders de forma equânime. Ter a liderança da empresa comprometida com a transformação social do país. Construir uma cultura consciente que traduza valores em ações. O que esses pontos têm em comum? São os 4 drivers de uma avaliação de consciência empresarial do Capitalismo Consciente, que é um movimento global que existe para transformar o mundo por meio da inspiração de negócios conscientes, sustentáveis e inovadores.

 

As empresas mais jovens enxergam de maneira mais clara o propósito atrelado ao resultado e a cultura como elemento de transformação social. Nas grandes empresas, os C-Levels possuem uma visão de aderência à cultura maior que a percepção dos demais profissionais.

Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o porte de uma empresa não inviabiliza a propagação de seus valores. Tudo isso foi avaliado pela Visagio, que em parceria com o instituto Capitalismo Consciente Brasil, analisou mais de 300 empresas em relação à maturidade em cada um desses drivers.

Uma empresa consciente é aquela capaz de gerar lucro de maneira longeva, com relações de confiança entre toda a cadeia na qual ela atua e engajamento total dos líderes, que são orientados ao propósito da companhia.

Propósito Maior – A motivação acima do lucro

Ter um propósito maior define o papel da empresa para a sociedade. Num cenário de pessoas que questionam cada vez mais o próprio propósito, não se contentam com um bom salário e estabilidade profissional, possuem uma ambição muito maior pelo impacto no mundo que podem gerar com suas ações, a busca por empresas nas quais o mindset de transformação social que se encaixe nesse anseio é cada vez mais comum.  

O propósito da empresa é chave na atração e retenção de talentos, que sejam alinhados aos valores da organização e enxerguem um papel de transformação social diária.

Ir trabalhar pensando no impacto que as entregas gerarão é uma das mais inspiradoras experiências que um profissional pode ter.

Construir esse sentimento nos colaboradores fortalece a visão de negócios a longo prazo. Na pesquisa realizada pela Visagio, foi constatado que em apenas 26% das empresas as decisões são sempre tomadas refletindo o propósito maior. Dentre os respondentes, 40% não acreditam que contribuir para a melhoria da sociedade seja um dos principais motivos de existência das empresas. Esses dados indicam a distorção da visão de propósito nas empresas, colocando em xeque a prática do capitalismo consciente em detrimento de decisões orientadas apenas ao lucro.

Orientação para Stakeholder – O benefício mútuo de uma geração de valor consciente

Criar um ambiente de trabalho capaz de gerar valor para os profissionais através de:

Para os acionistas, a relação deve ser de busca por um crescimento sustentável e longevo da organização, sempre com o senso de responsabilidade social.

Pensando além dos muros da empresa, a visão de capitalismo consciente engloba se relacionar com clientes e fornecedores que possuem valores similares e causar um efeito positivo na sociedade. A relação com clientes e fornecedores fortalece um ambiente de trocas de produtos e serviços harmonioso, evitando conflitos decorrentes de propósitos antagônicos. As relações comerciais são cada vez mais pautadas na mutualidade dos benefícios, com uma valorização da parceria em detrimento de ser meramente uma venda de produto ou prestação de serviço. A associação da imagem de duas empresas com propósitos desalinhados pode afastar clientes e estressar a cadeia na qual essas empresas se inserem.

Apesar de 80% dos colaboradores acreditarem que surpreender os clientes é uma das metas da empresa, só 46% deles acreditam que realmente a empresa consegue superar as expectativas nos produtos oferecidos ou serviços prestados. Somando a isso o fato de 70% das empresas ter como as últimas prioridades no momento de seleção de fornecedores a cultura consciente e as parcerias de longo prazo, é evidenciado que ainda há um longo caminho a ser percorrido na construção das relações entre as empresas para o atingimento de um grau de maturidade na orientação para Stakeholders.

Liderança Consciente — O papel do líder como disseminador de cultura da empresa

Traduzir o propósito maior de uma empresa em direcionamentos para a organização é umas das principais atividades estratégicas da liderança. Os líderes devem ter a preocupação e cuidado para que suas ações cativem confiança como transmissores da cultura e propósito, inspirando, desenvolvendo e motivando pessoas que refletirão em suas entregas a satisfação e engajamento resultantes do ambiente de trabalho. Acima de tudo, ser líder é servir ao propósito da organização criando valor para todos os seus stakeholders, cultivando uma Cultura Consciente e permitindo que um time motivado seja capaz de feitos grandiosos de alto impacto para sociedade.

Em apenas 28% das empresas há um propósito voltado para a geração de valor para a sociedade, refletido e vivenciado diariamente na sua cultura com líderes preocupados em deixar um legado para o mundo. Em contrapartida, 52% afirma que há um cuidado com o impacto que ações da empresa podem gerar. Esses números apontam que há o receio com a repercussão negativa na imagem da organização, mas não há o mesmo afinco para construir um legado positivo.

Cultura Consciente — As ações conscientes em sua forma mais genuína

O estágio pleno do capitalismo consciente é ter colaboradores que conseguem vivenciar no dia a dia de trabalho o propósito maior da organização. Nesse modelo, a empresa se torna um agente transformador na sociedade através de pessoas que agem orientadas a valores que acabam se disseminando para esferas externas à própria empresa. O sentimento de que a empresa coloca em prática o que propõe como propósito fomenta uma relação de confiança plena dos colaboradores na empresa, bem como um engajamento diferenciado das pessoas.

Embora seja comum a existência de valores de uma empresa, em apenas 57% delas os colaboradores enxergam que realmente esses valores são vivenciados no cotidiano. Em 40% das empresas os valores sequer são determinantes para a contratação de novos colaboradores.

O conceito de capitalismo consciente é um resgate ao conceito do próprio capitalismo, que surgiu com empresas crescendo devido ao protagonismo de seus fundadores e perdeu essa essência quando os líderes das empresas se distanciaram dos valores e objetivos de seus fundadores ao longo do tempo. Quando a máquina criada para gerar eficiência se torna uma ferramenta de executivos dinheiristas para gerar resultados financeiros para acionistas a qualquer custo, a sociedade mergulha em um cenário de fornecedores sendo massacrados, produtos sendo produzidos com qualidade inferior para minimizar custos e diversos outros mecanismos de rentabilização do negócio sem alavancar a cadeia como um todo e gerar um retorno social positivo. Trazer à tona o conceito de capitalismo consciente, fomentar as práticas de transformação social nos negócios e difundir uma cultura consciente é um grande passo em direção a um mundo mais justo, no qual os stakeholders são tratados de forma equânime.

 


Sobre os autores

Marcus Sousa é consultor da Visagio, especialista em projetos com foco em modelo de gestão, suprimentos e analytics nos setores de varejo, mercado financeiro, indústria metalúrgica e energia. Atua também como líder da área de Research & Intelligence da Visagio, com foco em pesquisas e análises de mercado.

Rafaela Siquara é consultora da Visagio especialista em marketing, comunicação e design, mapeamento de processos, implementação de CSC e OBZ com atuação nos setores de energia, varejo, serviços e moda.

Vitor Marques é sócio-diretor da Visagio, atuou em projetos de Operações, Logística e Supply Chain em empresas de setores como varejo, transportes, mineração e agronegócio.